segunda-feira, novembro 23, 2015

FAIR-PLAY À PORTUGUESA


Tenho amigos benfiquistas e nem todos merecem este puxão de orelhas. Mas as verdades é para serem ditas. Todos estamos recordados das afirmações de Eusébio no sentido de que nunca marcaria um golo contra o Benfica, clube do seu coração, numa ocasião em que era jogador profissional contratado por outro Clube. Esse episódio surgiu numa ocasião em que o Clube que lhe estava a pagar o ordenado ia jogar contra o Benfica. Eusébio, contou o próprio em entrevista televisiva, avisou os colegas de equipa que  não contassem com ele para marcar golos ao Benfica.
Em qualquer parte do Mundo este tipo de declarações mereceria desprezo ético e condenação desportiva. O Fair-play não admite atitudes destas. Porém, alguma Comunicação Social teceu rasgados elogios, a restante encolheu os ombros e não houve um único jornalista que se tivesse atrevido a condenar a atitude. Para mim, este episódio não é mais do que a vivência dum certo tipo de benfiquismo parolo com o qual convivo há 50 anos. Dominado por gente sem vergonha e tolerado por quem tem vergonha, mas que prefere encolher os ombros do que enfrentar  os sem-vergonha. Fosse isto um país a sério e um episódio destes seria impedimento bastante para que Eusébio merecesse o Panteão Nacional, onde só devem jazer aqueles que são exemplos sem mácula para a juventude. E um tipo que faz uma cena destas não o quero como exemplo para os meus filhos. Mas um país que ao fim de 4 anos condecora o Ministro das Finanças que conduziu Portugal à bancarrota também não permite traçar linhas muito rectas no que respeita a padrões de comportamento.
De todo o modo, saúdo o exemplo de Reinaldo Ventura, o crónico capitão da Equipa de Hóquei do FCPorto, agora a jogar pelo Óquei de Barcelos, que marca 4  dos 5 golos da vitória da sua equipa contra o FCPorto e apenas sente constrangimento a comemorar os golos. Não é exemplo único. Há muitos  desportistas que trocam de clube e que procedem de igual modo. O que é estranho nesta história é o comportamento de Eusébio. Que só entendo como o aproveitamento de um extraordinário jogador que ele foi há uma décadas  para servir os mais actuais  desígnios económicos de uma  marca comercial. O que está no Panteão Nacional não é o Eusébio-Jogador, é o Eusébio-Marca Registada. Se calhar por isso o Funeral foi do Jogador e revelou  uma  colossal manifestação de dor popular, enquanto a transladação para o Panteão Nacional foi da Marca Comercial e mereceu uma  confrangedora indiferença.

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