quarta-feira, outubro 14, 2015

CORRUPÇÃO OU EXTORSÃO OU CORTESIA OU TUDO JUNTO

 Luis Filipe Vieira "andou anos a fio a falar de fruta e agora oferece a refeição toda" - disse Augusto Inácio.


Todos os clubes das Ligas mais importantes, sem excepção, oferecem prendinhas aos árbitros. Desde aquele apito de ouro que de tão minúsculo  fez rir o Tribunal quando foi exibido, até à caixa com 3 garrafas de vinho da Reserva da Adega Cooperativa lá da terra. Alguns Restaurantes oferecem o almoço e/ou o jantar aos árbitros num misto de hospitalidade que honre o prato típico da localidade  visitada, sem descurar um pouco de graxa para que o árbitro não seja "contra nós". Por vezes, nas cabines dos árbitros apareciam também senhas de gasolina, ou 10 contos para o mesmo efeito, para ajudar o custo  da deslocação. Enfim, tudo formas de se ser simpático para com o trio de arbitragem. Não vão os gajos embirrarem com a nossa equipa. Porque se os outros dão e se nós ficamos nas encolhas, estamos tramados.
 E de tanta simpatia, ou de tanto medo de ser prejudicado, as coisas foram-se descontrolando. Por vezes as senhas de gasolina (ou as notas) já davam para ir a Paris e voltar com 98 octanas, e cada arbitro já podia levar 3 pessoas  a um banquete  que era suposto  apenas dar-lhe a provar o prato típico da terra. E havia também as situações de prostitutas, sendo que FCPorto e Benfica - pelo menos estes - têm documentos no youtube que não me deixam dúvidas.


Mas esta forma de conviver não acontecia  só no futebol. Nas terras mais pequenas, as forças policiais  recebiam uma garrafa de vinho do Porto pelo Natal, "para a Consoada de quem estava de serviço, coitado". E às tantas aquilo já era tanta garrafa que dava para fazer natal sempre que a polícia quisesse. Obviamente que estas prendas, cada uma delas de valor exíguo, não era bem corrupção, mas havia ali uma intenção de lhe vir a ser perdoada uma  eventual multa, caso se esquecesse do capacete da motorizada no ano que aí vinha. Nalguns casos a coisa descontrolou, como é público com os processos criminais instaurados a elementos da Brigada de Transito.
Este sistema das prendinhas funcionava também com a nota de 10 contos que se tinha de dar ao ajudante de notário para que a Escritura  fosse celebrada ainda esta semana e não dali a 2 meses. Quem dava, não o fazia por especial motivação criminosa, com o desejo de corromper o funcionário publico. Dava porque, se não desse, estava tramado e nunca mais fazia a Escritura. Nalguns casos  as coisas descontrolaram e chegou-se a situações como as dos  Vistos Dourados.
E nas obras públicas  o empreiteiro dava um cabaz de natal ao Vereador, depois passou para um andar em nome do filho do autarca e depois  chegou-se a casos como o de Isaltino, ou o das obras no Ministério da Justiça ou a situações como a Operação Marquês.
Ora bem, seja com intenção de obter vantagem, seja com medo de ser prejudicado se não der, seja apenas por hospitalidade e simpatia, estas coisas têm que acabar.
Estas práticas vêm do tempo da Monarquia - quem se dirigia ao Rei tinha que levar um presente. Foi explorada pela I República de forma alarve, foi muito tolerada durante o Estado Novo, porque os Funcionários Públicos ganhavam pouco e a saca de batatas ajudava à  panela. 
E nesta III República perderam-se as estribeiras ao ponto de se reconhecer pacificamente e declarar internacionalmente o nosso regime democrático como corrupto.

Segundo julgo saber, nos USA, o Funcionário Público tem que declarar superiormente todo e qualquer presente que receba. Até ao valor de $10 dólares pode ficar com a prenda. De valor superior tem que entregar no Serviço. Mas tem que declarar por escrito toda e qualquer prenda. Obviamente que a regra prática é o repúdio do presente. Dá mais trabalho o processo de registo do que receber a prenda. E fica sempre a dúvida sobre se aquela prenda significa a violação de qualquer dever. Por isso, o Funcionário, à cautela,  repudia. A menos que seja o desenho que uma criança, depois de curada, vá ao Hospital oferecer ao Médico. Mas mesmo esse desenho tem que ser declarado.


Por cá esta águas turvas têm que acabar de uma vez por todas. Não há inocentes. Todos nós, de uma forma ou de outra, já tivémos que dar por fora para obter uma vantagem, para não sermos prejudicados ou para desbloquear uma dificuldade.
Nestas matérias não pode haver cinzentos, intenções mais benévolas,  mais matreiras, mais ingénuas ou mais pérfidas que outras.  Ou é preto ou  é branco.
Não é só o Benfica que tem que acabar com a Caixa do Eusébio. Essas caixas têm que acabar em todo o lado. E os artigos de merchandising e as garrafas da Cooperativa e o leitão e o presunto e a chouriça. Tudo. Ou nada. Ponto final.
Para já,  os árbitros devem incluir no Relatório do Jogo as prendas que recebam. E esses Relatórios têm que ser publicados. Para toda a gente ver.
Bruno de Carvalho, seja por que razão for, colocou o dedo na ferida. Ele próprio reconheceu que o Sporting oferece umas camisolas.  Saúdo-o por isso.


Declaração de interesses: sou sócio de um dos três grandes e tenho vergonha quando o meu clube é apontado, mesmo percebendo que a verdade seja só 10% das acusações jornalísticas. Mas nem que fosse 1% a vergonha era a mesma.



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